06-11-2018

Contra a vulgarização da medicina como arte

Medicina não é ética quando utilizada para levar o homem à frente de suas capacidades normais

 

Na contramão de boa parte de seus colegas europeus – que, a cada dia, embasam mais conhecimento e prática em avanços tecnológicos – o médico e bioeticista norueguês Jan Helge Solbakk, professor da Universidade de Oslo e que já chefiou o programa de Bioética da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), além de dirigir o Comitê Nacional para Pesquisa em Saúde de seu país, considera que a “medicina não é ética” quando utilizada para levar o homem à frente de suas capacidades tidas como “normais”. 

Por exemplo, segundo Solbakk, usar avanços científicos e tecnológicos apenas com fins estéticos é algo que afasta a medicina de sua origem como “arte”, vulgarizando-a. Dentro deste raciocínio, vê como algo “quase criminoso” disponibilizar tais meios para prolongar indefinidamente a vida “de um grupo pequeno”, desconsiderando milhares de refugiados “sem o mínimo para exercer suas potencialidades”. 

Com o mesmo critério humanitário, defende investimentos em nanotecnologia somente quando as outras prioridades básicas estiverem satisfeitas, especialmente, em nas nações pobres. 

Confira entrevista exclusiva com o médico – que também se formou em Filosofia, Teologia, Matemática e Química –, concedida no fim de setembro, no XII Congresso Brasileiro de Bioética, em Recife, PE. 

Por que, em seus artigos e palestras, o senhor chega a ser reticente à aplicação da tecnociência em benefício das pessoas? 

Todas as vezes que a medicina atua para reestabelecer a normalidade de alguém, funciona de acordo com seu significado original como arte. No momento que emprega ciência e tecnologia visando potencializar nossas capacidades devidas e esperadas, deixa de ser arte ética, se vulgariza, e transforma arte em estética.  

Desde seu início, a medicina ocidental se concebeu como um conceito original de arte. Na Grécia antiga, Technikí significava ao mesmo tempo Ciência, Arte e Tecnologia.

Não é uma ciência exata, como são a Matemática e Física, é estocástica, conjectural, ou seja, admite várias direções, por vezes infinitas, nas quais o processo pode evoluir. 

Um exemplo de como se pode atuar artisticamente em medicina, ressignificando resultados de maneira ética, acontece quando reconstruímos as mamas de uma paciente, depois de tê-las extirpado em virtude de câncer: tal intervenção volta-se a restabelecer a normalidade daquela atendida. Mas existem limites: ao proporcionar a uma adolescente cirurgia plástica só para satisfazer o desejo dela de ostentar mamas maiores, estaremos banalizando o aspecto artístico e priorizando o estético. 

Mas não é difícil reconhecer as fronteiras entre vulgaridade e normalidade, perante os desejos pessoais e particulares de cada paciente? 

Sempre é um desafio, mas a partir do momento em que a medicina utiliza as tecnologias para modificar e aprimorar nossas capacidades como a memória, aptidões físicas, aparência estética, deixa de ser arte, tornando-se apenas mecânica. 

É o que dizemos em relação às novas tecnologias conhecidas como nanotecnologias. 
Se pretendermos adotar isso no contexto de um país pobre, em primeiro lugar, teremos que saber quais são as necessidades locais; as causas mais prevalentes de doenças; por que a vida se torna difícil para alguns do que a outros. Apenas depois de obtermos as repostas ocasionalmente podemos perguntar: “e aí? Onde colocaremos a nanotecnologia e as outras tecnologias novas”?  

O primeiro passo, então, é identificar, por meio de um diálogo aberto envolvendo governantes, profissionais de saúde, e demais representantes da população, quais são as necessidades mais prevalentes e as formas de resolvê-las, o que é muito mais importante do que qualquer aparato tecnológico. 

Dentro do que chama de “vulgarização da medicina” inclui a busca por prolongar indefinidamente a longevidade? 

Pensar em um projeto específico para o prolongamento indefinido da vida de um grupo pequeno soa quase como um crime, em um período da história da Humanidade onde se calculam mais de 65.3 milhões de refugiados, por conta de conflitos internos e externos das nações. É escandaloso não levar em consideração as necessidades de milhões que nem sequer têm condições de realizar suas capacidades normais.  

Para usar outra palavra dos sábios gregos, isso é uma forma de Hybris, termo que significa “o crime do excesso e do ultraje”, um comportamento de “provocação aos Deuses e à ordem estabelecida”. 

Para o senhor, que já coordenou o Programa de Bioética da Unesco, quais são os desafios bioéticos a serem enfrentados hoje pelos médicos? 

É preciso contextualizar a pergunta.  Cada país deveria questionar quais os tabus e os problemas sobre os quais não se fala abertamente. Na América Latina há um silêncio em relação às milhares de crianças que vivem nas ruas e ao visível aumento de pessoas que se alimentam do lixo. 

Como europeu, também penso ser um paradoxo que o aborto siga como tema quase proibido neste continente. Como o Brasil pode ficar entre os líderes nos rankings de suicídio de mulheres jovens e de violência doméstica, e manter uma das legislações mais restritivas quanto à interrupção de gestação? 

Tudo isso é, sim, um problema médico e dos médicos, responsáveis ainda por defender seus pacientes inseridos em ensaios clínicos pagos pela indústria farmacêutica, e que chegam às nações em desenvolvimento por conta dos custos menores, facilidade de acesso dos participantes, e possibilidades ínfimas de processos judiciais. 

Creio, portanto, que os desafios mais importantes dos médicos nesta América passem pelo exercício de uma medicina social, que se ocupa dos marginalizados da sociedade. 


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