24-03-2008

É preciso empoderar os invisíveis! - CBB 2007

...conclama a filósofa espanhola Adela Cortina

A professora Adela Cortina, catedrática de Filosofia Jurídica Moral e Política da Universidade de Valência, pode até ser considerada “conhecida” dos brasileiros: além dos livros publicados em português – entre eles, Cidadãos do Mundo:  para uma Teoria da Cidadania e Aliança e Contrato - Política, Ética e Religião, pelas Edições Loyola – se fez presente nos dois últimos Congressos Brasileiros de Bioética, o realizado em Foz do Iguaçu, no Paraná (2005), e o ocorrido em São Paulo (2007), que focalizou a Bioética: Construção Social e Paz, coordenado pela Sociedade de Bioética de São Paulo (regional da Sociedade Brasileira de Bioética/SBB).

Em ambas as ocasiões, aliás, esbanjou simpatia e discursos fervorosos sobre a necessidade de se garantir a cidadania aos mais vulneráveis – “aos invisíveis”, como classifica –, além de defender idéias inovadoras como a voltada à ética nos negócios, assunto pouco explorado por bioeticistas contemporâneos. 

Na visão dela, por exemplo, empresas que assumem seu papel social conseguem ajudar a União Européia a atingir a meta de crescimento econômico sustentável, com mais e melhores empregos e coesão social. “É indubitável que a responsabilidade social é uma das dimensões éticas da empresa. Assumi-la é uma aposta que, além da ética, propicia maior rentabilidade”, defende.

Outra preocupação constante de Adela Cortina refere-se ao consumo exacerbado em nações desenvolvidas, como nos EUA. “Infelizmente, o que nos une cada vez mais não é o fato de sermos pessoas e, sim, de sermos consumidores. O consumismo consegue expulsar a solidariedade” enfatizou, após conferência proferida no VII Congresso de Bioética, ocasião em que concedeu entrevista ao site do Centro de Bioética do Cremesp, a exemplo do ocorrido na penúltima edição do evento (veja em Um Impulso para a Cidadania Ativa).

Centro de Bioética – Seu livro mais novo trata da Cidadania do Século XXI. Neste século, quais são prioridades em termos de justiça social?

Adela Cortina – O primeiro elemento mais básico a ser constatado e revertido diz respeito à invisibilidade de grande parte da população. Não há pior exclusão do que a invisibilidade.

Cbio – Quem são as pessoas “invisíveis”?

Adela – São as marginalizadas totalmente pela sociedade. Não possuem carteira de identidade, nem domicílio reconhecido... As populações tentam ocultar-lhes ou porque são pobres; ou porque são doentes; ou quando julga que não tenham nada de interessante a  oferecer a ela, a sociedade; ou porque a vida lhes relegou o papel de “insignificantes”.

Existe um número enorme de cidadãos esperando para passar da invisibilidade à visibilidade. Tantas mulheres que continuam sendo maltratadas pelos maridos, por não contarem com a defesa outorgada pela cultura, pelo dinheiro e/ou, as chances. Há os incapacitados que, pela deficiência física ou mental, são ignorados ou até escondidos pelas próprias famílias, que nada fazem para adaptar-lhes ao convívio social.

¡Por Dios! Pessoas incapacitadas são iguais a nós, e, portanto, precisam tornar-se visíveis. O  restante da humanidade deveria se esforçar para contrariar os interesses dos que buscam condenar alguns à sombra.

Para que os “invisíveis” consigam se restabelecer como pessoas, a primeira providência seria apoiar-lhes na concretização de suas necessidades essenciais de sobrevivência, como o comer e o vestir-se. Mas os passos mais importantes vêm depois, e consistem em enxergá-lhes e empoderar-lhes, para que consigam, por si, controlarem dignamente as próprias vidas.

Cbio – Como colaborar neste intento?

Adela – Por exemplo: uma instituição atua no empoderamento de mulheres relegadas à marginalidade ao fornecer-lhes crédito para que possam montar uma cooperativa. Com o fruto de seu trabalho elas se tornam capazes de devolver o dinheiro, obtendo, como conseqüência, mais crédito a ser investido no próprio negócio. Forma-se assim um ciclo que permite a reconstrução de vidas.

Para que se fomente o que se chama de “cidadania social” é necessário lançar-se mão de três conceitos: a Autonomia a Solidariedade e a Igualdade – esta última, um autêntico motor para a formação da identidade social.

Cbio – A senhora tem trabalhado muito com estes conceitos, como deixa claro em seu livro Cidadãos do mundo - Para uma teoria da cidadania. Estamos abertos para mudanças de mentalidade, que levem à solidariedade?

Adela – Sim, existem correntes de pensamento propícias ao empoderamento e à solidariedade.

Felizmente há indivíduos e organizações empenhados em assumir tal tarefa e que, por isso, estão fazendo história. Cito como exemplo programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, que busca  identificar em que países as capacidades básicas das pessoas não estão sendo empoderadas.

Porém, as mudanças se inviabilizam quando as empresas não assumem sua parte. Neste tópico, observamos ainda uma desatenção enorme, mas, felizmente, existem também algumas esperanças, ou seja, algumas empresas estão assumindo sua responsabilidade social. Criar riquezas para a comunidade, manter a honra de uma família de comerciantes, fomentar laços corporativos,  são motivações que não se identificam com auto-interesse, não é?

Entrevistador – Falando sobre o papel social das empresas. Como lhe parece a ênfase dirigida às horas dedicadas ao trabalho e que, por isso, não são dedicadas ao pensar? Será que esses momentos de reflexão não ajudariam às empresas a encontrarem formas de incluir mais pessoas no mercado de trabalho?

Adela – Claro. É fundamental que se reflita sobre o direito básico da cidadania, que deveria ser salvaguardado a toda pessoa por direito de nascimento, para que se possa garantir uma vida digna.

Há que se ter condições de sobreviver, para que possa trabalhar com todo o gosto e vontade.

Além disso, se trabalhar é um direito humano – e não há trabalho para todo mundo – é preciso refletir-se sobre formas de gerar empregos.

Entrevistador – Mas a necessidade de trabalhar – e as dificuldades de se arranjar um emprego – não criam um mecanismo de dependência do empregado, em relação ao empregador? Há quem se submeta, se torne escravo da empresa em que atua...

Adela – O que não faltam no mundo são pessoas estressadas: de um lado estão os estressados por causa do seu trabalho. De outro, os estressados por não conseguirem um trabalho.

Mas vamos por partes.

Em princípio é importante que todos tenham trabalho, para poderem comer e vestir-se. Porém, em outro extremo existem aqueles que despendem uma quantidade exagerada de horas no trabalho, não ficando com tempo para o pensar; para a família; para o lazer, para mais nada... Então, a distribuição da jornada laboral virou um dos grandes temas de discussão deste século.

Muitos  pesquisadores estão debruçados sobre a questão da redução da jornada de trabalho, buscando, inclusive, permitir a um grande contingente feminino a chance de se dedicar a outras tarefas, como as intrínsecas à maternidade… Existem várias fórmulas que estabelecem 40, 30 horas de atuação, para que se possa combinar o trabalho ao cuidado com crianças pequenas, a meu ver, algo fundamental. 

Cbio – E o tema do consumo – ou do controle do consumo exagerado – deveria constar da pauta de prioridades dos países e dos economistas?

Adela – Além da redução da jornada de trabalho, esse outro tema é essencial, na verdade, central em muitas sociedades. A mudança de nossos hábitos de consumo mereceria demorada reflexão, como abordei no artigo “Por uma Ética de Consumo”.

É evidente que o consumo não pode ser visto como um mal em si, pois é justamente ele que se converte em parte importante da economia. Sem consumo, não há trabalho, nem riqueza.

Entende-se também que, tanto em países desenvolvidos quanto naqueles em vias de desenvolvimento, as pessoas têm o desejo de consumir, ou seja, valem-se da própria autonomia para esse fim: em todos os lugares há jovens que querem comprar sapatos, celulares...

E é isso que torna a dinâmica trabalho/consumo tão interessante, sob o ponto de vista econômico: para consumir alguém deve tirar o dinheiro do bolso, sejam os jovens, sejam seus pais, e isso indica que há alguém trabalhando naquela família.

Porém são justamente as formas de consumo e os estilos de vida que, quando descompensados, criam enormes problemas sociais e econômicos.  Vejam: não há algo que seja tão custoso, tão complicado, do que aquilo que se poderia chamar de “forma de vida e de consumo da classe média”. 

Existe uma discrepância indiscutível quando observamos populações para as quais “felicidade” significa ir às compras – e para quem as compras se tornam um fim em si mesmas. Homens e mulheres que saem para comprar e desconsideram o outro que está ao seu lado, morrendo de fome.

É possível, sim, levar um outro estilo de vida, não tão pautado no consumismo exagerado, e ser extremamente feliz, como tentam conscientizar associações de consumidores sediadas na Espanha – e em outras partes do mundo. As nações deveriam estar atentas para esta realidade.

Cbio – De que forma disseminar o pensamento de contenção do consumo, em meio a uma sociedade altamente consumista, como a norte-americana?

Adela – São exatamente entre os norte-americanos que se vêem os maiores problemas e é justamente nos Estados Unidos onde deveriam ser implementadas as maiores reflexões e as medidas mais urgentes quanto ao consumo.

O consumo é tão acelerado por lá que acaba resultando em enormes distorções: os trabalhadores chegam a realizar uma jornada laborativa estressantíssima apenas para consumirem mais e mais. Comprar é o único objeto de desejo – e isso mereceria uma auto-análise por parte de todos os americanos, não só de alguns economistas locais, preocupados com tal tendência assustadora.

Além disso seria essencial enfrentar o desequilíbrio mundial acarretado pelo hábito de consumir, porque o consumo de países desenvolvidos acaba incidindo no não-consumo dos não-desenvolvidos.

Como disse em minha conferência (no VII Congresso de Bioética), é válido acharmos a nossa mãe a pessoa mais charmosa do mundo, da mesma maneira que podemos considerar a nossa pátria como a melhor. Mas, para isso, é preciso que a nossa mãe seja uma boa pessoa.

Outras reflexões de Adela Cortina:

- Os países não deveriam celebrar a idéia de independência mas, sim, de interdependência. (Durante a conferência Cidadania no Século XXI, no VII Congresso Brasileiro de Bioética)

- Como dizia Aristóteles, os venenos podem matar, ao mesmo tempo em que servem para curar. Tudo depende das doses. A globalização é um bem e uma grande ocasião para ser promovida a cidadania: o universo seria a cidade de todos os cidadãos. Por outro lado, a mesma globalização consegue aumentar o abismo entre ricos e pobres e reforçar o comportamento de nações que não se interessam por ninguém, que agregam pessoas que só pensam em consumir como loucas. (Em entrevista concedida ao site Politicasnet)

- A política pode mudar a sociedade do século XXI. Outro mundo não é só possível, como necessário. É possível – e tem que se fazer real. O grande tema a ser discutido, então, é a implementação da cidadania ativa. Trata-se de uma necessidade de 1ª ordem, senão, não podemos mudar o mundo (Durante a conferência Cidadania no Século XXI, no VII Congresso Brasileiro de Bioética)

- Um dos grandes desafios do século XXI é conseguir que as pessoas que detêm o poder detenham também a ética. A salvação da humanidade poderia depender, em parte, de a ética se vincular ao poder (Em entrevista concedida ao site Politicasnet)

- A economia não se resume em intercâmbio, mas envolve também produção e distribuição. Em todos esses momentos a ética é imprescindível: o hábito de cumprir contratos, o compromisso com a qualidade dos produtos, confiabilidade nas instituições e uma amplitude de motivações são qualidades distintas do interesse próprio. (No artigo ¿Marketing con causa?)

- Se há alguém capaz de vender a alma ao diabo esse alguém é um intelectual (Durante a conferência Cidadania no Século XXI, no VII Congresso Brasileiro de Bioética)


* Adela Cortina é professora de Ética e Filosofia Política na Universidade de Valência. É fundadora e diretora da Fundación ÉTNOR para a Ética em Negócios e Organizações, voltada à difusão e desenvolvimento da Ética Econômica.
É autora de dezenas de livros como Ética de la razón cordial: educar em la ciudadanía em el siglo XXI (2007); Construir confianza: ética de la empresa em la sociedad de la información y lãs comunicaciones (2003); Por una ética Del consumo: la ciudadanía Del consumidor en un mundo global (2002); e Ciudadanos Del mundo: hacia uma teoria de la ciudadanía (1997), além de diversos artigos. 


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