12-12-2006

A visão bioética diferencia o médico bom do razoável - I COBIRP 2006

Segundo Isac Jorge Filho “A visão bioética diferencia o médico bom do razoável”

O médico Isac Jorge Filho, conselheiro do Cremesp e ex-presidente da entidade, há tempos se interessa por Bioética: formado em 1966 pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP/Ribeirão Preto), contou com “o orgulho e a felicidade de freqüentar uma escola que estimulava a psicologia e o relacionamento humano com os pacientes”. Depois, como professor de cursinho nas disciplinas de Botânica, Zoologia e Ecologia, aprofundou-se questão da Bioética e Meio Ambiente – enfoque que desenvolveu no Congresso de Bioética de Ribeirão Preto, ocorrido entre 26 e 28 de outubro.
 
Aliás, organizar um evento de tal monta na “cidade que o acolheu com tanto carinho” era um dos sonhos do gastroenterologista. A boa notícia é que todas as circunstâncias ajudaram – e muito – para o projeto dar certo. O público também não decepcionou: “quem vem a eventos de Bioética já percebeu a importância dos temas, no aprimoramento pessoal e profissional. Está despertando” opinou, durante entrevista gentilmente concedida ao site do Centro de Bioética do Cremesp, no último dia de encontro.
 
Confira, a seguir, a íntegra:  
 
Centro de Bioética – Por que promover um Congresso de Bioética em Ribeirão Preto?
 
Isac Jorge Filho – A idéia veio a calhar, por uma série de motivos. Este ano é marcado pelo sesquicentenário da cidade e pelos cinqüenta anos do nosso Hospital das Clínicas e, também, o cinqüentenário do 1° Congresso Médico da Associação Médica Brasileira (AMB), evento realizado em 1956, por solicitação de nosso Centro Médico. Diga-se de passagem, encontro que alcançou muito sucesso, contando, inclusive, com a participação Bernardo Houssay, prêmio Nobel de Fisiologia.
 
Os colegas de São Paulo, representados pelo Cremesp, APM e Simesp, e os brasileiros, pelo CFM e AMB, queriam ainda prestar uma homenagem a Ribeirão Preto que é tida como um dos pólos mais importantes da Medicina brasileira – não apenas pela quantidade de faculdades, mas pela excelência de sua Medicina.
 
Foi o Dr. Plínio Uchoa, hoje com 87 anos e presidente do Centro Médico na época do 1° Congresso da AMB, quem se lembrou do aniversário de tantas datas importantes, questionando se nenhuma manifestação seria feita. A partir daí, nós, do Cremesp, começamos a nos empenhar, junto com o Centro Médico de Ribeirão Preto, na tarefa de fazer um evento que brindasse todas essas ocasiões.
 
Cbio – E a escolha pela Bioética como tema central?
 
Isac Jorge – A divulgação da Bioética, que inclui a Bioética Clínica,  figura entre os papéis mais importantes de um Conselho de Medicina, como Conselho de Ética que é.

Faz parte do programa de trabalho do grupo que está à frente do Conselho divulgar a Bioética, inclusive, nas Faculdades de Medicina e em outras áreas, além de difundi-la entre a população.

Estimulamos as atividades na área no período que eu fui presidente. O Clóvis (Constantino) fez a mesma coisa, bem como o Desiré (Callegari), nosso atual presidente. 

E é de lei: “uma das funções dos conselhos é lutar com todos os seus meios para divulgar e buscar o aperfeiçoamento técnico e moral da Medicina”.   

Considerando tudo isso, o Cremesp sempre privilegiou e deu destaque merecido à Bioética. Tanto que criou o Centro de Bioética, coordenado pelo professor Gabriel Oselka; e a Câmara de Bioética, coordenada pelo conselheiro Reinaldo Ayer de Oliveira, que oferecem estrutura e retaguarda para se organizar um congresso de Bioética, sem precisar de muita gente de fora.
 
Cbio – O período disponível para a organização do Congresso foi curto. Isso restringiu o enfoque a apenas uma disciplina?
 
Isac Jorge – Realmente. Cinqüenta anos atrás, o Congresso da AMB, no Centro Médico, foi geral. Desde então a profissão apresentou avanços técnicos tão significativos, que seria complicado criar um congresso pluridisciplinar durante o período disponível.
 
Cbio – Como foi a escolha dos temas?
 
Isac Jorge – Quando definimos a realização do Congresso, estabelecemos clara separação entre os papéis de uma comissão organizadora formal, que cuidasse dos detalhes; encontrasse o local ideal etc; e de uma comissão científica, responsável pelo temário. A parte prática foi assumida por Cleusa Cascaes Dias, a atual presidente do Centro Médico. A científica, ficou a cargo da Câmara Técnica de Bioética.
 
Inicialmente tivemos a idéia de que começar com um curso básico de Introdução à Bioética, porque muitos ouvem falar sobre o assunto e não sabem bem do que se trata e de sua profundidade. Pretendíamos, então, que no primeiro dia as pessoas recebessem 12 aulas voltadas aos assuntos básicos em Bioética, ministradas pelos membros da Câmara Técnica.
 
O tema Alocação de Recursos em Saúde é de fundamental importância – às vezes, pouco percebida. É algo que preocupa sobremaneira os nossos governos: apenas para se dar uma idéia, recebemos no Conselho queixas de Secretários Municipais e do próprio Secretário do Estado da Saúde, que não conseguem controlar os recursos, até porque entram em jogo medidas judiciais para o fornecimento de medicações de alto custo.
 
Além disso, não é possível negar que o dinheiro da saúde é usado para outras finalidades, não ligadas diretamente às necessidades da saúde pública. Ficou evidente, então, que era essencial discutir alocação com os vários atores da Saúde e com o Ministério Público.
 
A escolha de a Bioética do Princípio de Vida se baseou no fato de que é algo candente, talvez o tema que apresenta maior visibilidade na mídia. A população quer saber a respeito de clonagem, células-tronco, destruição de embriões etc.
 
Por fim, A Bioética e o Final de Vida surgiu pela importância que os Conselhos, capitaneados pelo CFM, estão dando ao tema, em função principalmente da minuta de resolução que está sendo discutida no Federal, a respeito de cuidados empregados no final de vida. (aprovada posteriormente pelo CFM, no dia 9 de novembro).
 
Cbio – A Resolução terá o apoio da categoria? 
 
Isac Jorge – Acredito que sim. Mas em nossa própria categoria pode haver restrições por parte de um pequeno grupo de colegas contrários à resolução por razões de foro íntimo, inclusive, as de ordem religiosa, que respeitamos. Mas, o texto prevê até esse tipo de coisa, garantindo a autonomia do médico que não quiser agir conforme o sugerido.

Sabemos, porém, que a grande maioria dos profissionais deve apoiar a resolução, pois ela se  propõe a proteger o médico, dando-lhe um instrumento útil de orientação.

Sem dúvida embates jurídicos deverão ocorrer, sendo muito importante a visão do judiciário sobre o assunto.

De qualquer forma, o texto me parece representar um grande progresso e não existe outra maneira de inovar, senão fazendo e aplicando.

Cbio – Como avalia os resultados do Congresso?
 
Isac Jorge – Penso que nossos objetivos foram todos atingidos. O primeiro era homenagear Ribeirão Preto. Conseguimos: até o prefeito se fez presente! Apesar de não ser na intensidade que eu esperava, a mídia também repercutiu o encontro.

Atingimos por certo a segunda meta, divulgar a Bioética, pois que levamos o entusiasmo pelo tema a um número interessante de pessoas. Basta observar os testemunhos de alguns presentes, como daqueles jovens que disseram “olha, acordei... Estou vendo um mundo com outras cores, reconhecendo um novo campo para cuidar”. Vimos que muita gente da região e até do próprio estado passou a falar em Bioética. 

Já havia organizado vários eventos na minha área, cirurgia e gastroenterologia... Em Bioética é bem mais difícil,  porque ninguém se interessa em investir. Então, isso só foi possível graças à colaboração de uma série de entes, como o Cremesp, CFM;  APM; Simesp; a Unip – que nos cedeu gratuitamente o espaço – e, principalmente, o Centro Médico de Ribeirão Preto.
 
Cbio – Por que a Bioética não atrai recursos?
 
Isac Jorge – Não atrai tanta gente, porque se imagina que não dê dinheiro – pelo menos, não diretamente. A maioria dos colegas prefere assistir eventos onde se apresentam novas técnicas que revertam em possibilidades imediatas a ele como médico e como profissional.

Porém, imaginar algo como “vou escutar essas coisas para que? Nem vou usar...” é uma idéia equivocada, já que o conhecimento bioético diferencia e valoriza o profissional de qualquer área. Além disso, Congresso de Bioética nem sempre atrai recursos porque capacita indivíduos que discutem conflitos. São poucos os interessados em formar bioeticistas, porque eles cobram e perturbam – e nós queremos que perturbem cada vez mais.
 
Por outro lado, há a antípoda disso: quem vem aos eventos de Bioética já percebeu a importância dela em termos pessoais e profissionais. E, se está “despertando”, acaba apaixonado. Acreditamos que estamos plantando e que, neste Congresso, plantamos muito. Estimulamos divulgadores e leitores da Bioética, e que, portanto, sairão por aí, buscando um mundo melhor para todos nós e para os nossos descendentes.
 
Cbio – O senhor dizia que a iniciação à Bioética no Congresso foi destinada a médicos e a não-médicos. Não parece estranho que um médico com anos de atuação desconheça a Bioética? Isso acontece?
 
Isac Jorge – Muito mais do que você pensa. Em primeiro lugar, porque são poucas as escolas médicas que dão o destaque devido à  Bioética ao longo do curso, por motivos até tradicionais – razão pela qual isso deve ser trabalhado pelo Conselho. 

O Cremesp tem se oferecido para tentar mudar esse perfil. Informamos para a escola médica algo como “olha, temos estrutura em Bioética, que estamos colocando à sua disposição”. A procura ainda não foi muito grande, mas atendemos a todas as que pediram apoio.
 
Cbio – Na época em que o senhor se formou, o médico era estimulado a ser um técnico e se afastar do humano.  Como se interessou pela Bioética?
 
Isac Jorge – Me formei em 1966 e tenho o orgulho e a felicidade em haver cursado a Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da Universidade de São Paulo (USP/Ribeirão), escola que sempre se caracterizou por apregoar uma visão do paciente como um todo, valorizando seus  aspectos psicológicos e a relação médico/paciente. Tínhamos psicologia desde o terceiro ano!
 
Mas era realmente uma exceção ao que ocorria nas escolas médicas em geral.
 
Meu interesse pela Bioética veio em fragmentos. Fui professor de cursinho por muito tempo, ensinando Zoologia, Botânica e Ecologia – esta última bastante relacionada com a Bioética. Daí meu  “xodó” por Bioética e Meio Ambiente, assunto focalizado no curso de introdução a Bioética neste Congresso. Isso, somado ao tipo de curso médico que freqüentei, me atraíram para a Bioética. Depois que entrei para o Conselho, isso se tornou quase dever de ofício.
 
Cbio – Em Medicina, o conhecimento técnico e conhecimento bioético se encontram no mesmo patamar? 

Isac Jorge – Na realidade, há que se contar com as duas formações, e elas não competem entre si. Só que considero que o conhecimento bioético está em patamar mais alto...
 
Claro que não adianta a um médico possuir uma formação apenas Bioética, se não conhecer a técnica. Se não souber fazer diagnóstico, tratar, será um péssimo médico, talvez seja um filósofo. 
 
É inegável que especialização é interessante. Porém, se raciocinarmos a partir de uma Medicina inserida no contexto de mundo, a diferenciação entre um bom médico e um médico razoável acontece não pela técnica, mas pela sua visão bioética das coisas; da biosfera; da Natureza. 
 
Por exemplo, peguemos dois profissionais altamente especializados. Vamos brincar dizendo que sejam especialistas em doença do “dedão do pé esquerdo”. O que diferencia um do outro é como eles vêem o dono daquele “dedão do pé esquerdo”; como lidam com ele como um todo; o meio em que ele vive; as dificuldades que envolvem a relação médico/paciente; e a forma com que o paciente encara a própria vida.
 
Resumindo: ele pode ser um excelente médico de doenças do “dedão do pé esquerdo”, porém, se não tiver uma larga visão, uma visão bioética, não será um bom médico, apesar de ser um bom especialista.
 
Costumo definir, brincando, pois eu mesmo sou um especialista, que as especialidades “evoluem de forma a fazer com que o especialista seja aquele que sabe cada vez mais a respeito de cada vez menos”.  Qual é o limite de se saber cada vez mais sobre cada vez menos? É saber tudo de nada.

Quero com isso destacar que o especialista precisa conhecer muito a respeito de sua área, mas não poderá, nunca, se esquecer de que ela faz parte de um todo, e o todo é o mais importante.


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